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Carla sacudiu os cabelos .

A chuva outonal que apareceu de surpresa , tornou o seu cabelo ondulado numa autêntica juba encaracolada .

Era tão bom sentir as gotas frescas na pele . Ela adorava andar à chuva , na maioria das vezes escondida do mundo . A  dançar .
Olhando em redor , em pleno jardim da expo , não vislumbrou ninguém . Estávamos no final do dia , em hora de jogo de futebol e numa zona sem bares , nem outros serviços .
Ela retirou os saltos altos , pisou a relva e elevou a cara para a chuva .
Sabia tão bem … Traulitou uma canção e dançou .
Não sabia se tinham passado horas ou minutos . Mas sabia que aqueles momentos  lavaram-lhe a alma ,  enxugaram as lágrimas interiores , acalmaram os medos .
A vida tinha sido tão madrasta nos últimos tempos . E apesar de rapidamente se esquecer das tempestades , elas deixavam marcas na alma .
Acalmou . Respirou , voltou a calçar os sapatos e devagar se dirigiu ao carro .
Quando levantou o olhar , deparou-se com outro carro estacionado a alguns metros e com um homem mais à frente , vestido de fato escuro e descalço … Na relva .
Por momentos os seus olhares se cruzaram . Ou então foram mais que momentos , talvez minutos .

Ela o conhecia . Não sabia de onde e como. Mas conhecia-o. Existia informação naquele olhar que ela não conseguia traduzir, ler , entender.

Existia uma sensação de desconforto que a fez entrar rapidamente no carro. E partiu.
Aquele olhar e aquela sensação a seguiu como uma sombra durante vários meses.

Anos depois…precisamente 3 anos depois , quando Carla entrou na sala do tribunal e olhou para o coletivo de juízes, passou pela mesma sensação. O mesmo olhar a trespassou. Lhe trespassou a alma.

Ele estava ali. Vestido com a toga preta . Mas era ele.

O companheiro de uma longínqua dança á chuva.

Tudo desapareceu á sua volta. Estava receosa. Porque nunca se tinha esquecido dele ? Porque seu instinto lhe adivinhou o carrasco ?

Porque foi um aviso, aquele encontro inesperado perante a chuva que molhava , mas não encharcava ?

Sentou-se. Nem as pernas sentia. Todo o julgamento decorreu como se estivesse a ver um filme , no qual era espectadora.

Mas era peça fundamental desse filme . E quando chegou á sua vez de se dirigir pra o ‘palco’, o medo foi o seu motor .

Fechou os olhos e concentrou-se num vidro imaginário, até abrir a boca para falar. Nunca o olhou nos olhos . Aliás, olhou, sem olhar. Olhou para um vidro que construiu e que não deixava nada que viesse daquele olhar a atingir.

Durou horas. Horas em que foi buscar dentro de si o inimaginável . Uma força contida, como se estivesse a falar de si,  para si mesma . Como se estivesse sozinha naquela sala de tribunal. Como nunca tivesse ouvido ou lido as barbaridades que dela disseram.

Quando terminou , saiu a correr dali. Chegou ao átrio e encostou-se á parede e tentou controlar a respiração.

Ele iria ditar o seu futuro imediato. Ele, iria avaliar tudo o que tinha dito e tudo o que tinha apresentado.

Mas o nome dele , não lhe saia da memória. Algo dentro de si , lhe dizia que não existiam coincidências e que a probabilidade de encontrar nomes idênticos , não era grande.

A probabilidade de terem dançado á chuva no mesmo dia, não era mera coincidência.

Isso a deixava ansiosa. Muito ansiosa.

A advogada falava e ela não ouvia. Sorria apenas. No entanto, ela sacudiu-a de leve.

-Carla , estou aqui. Fala comigo, estás branca.

Carla olhou-a como se não a conhece-se . Pediu desculpas e fugiu dali.

 

Ele era da maçonaria.

Ele pertencia ao grupo de homens que ela tinha tido a coragem de limpar da sua vida profissional e pessoal.

 

Por mais voltas que desse, por mais que lutasse e se rebelasse . Ia parar ao mesmo sitio. Aquela loja maçónica , a quem ela teve a coragem de dizer : Não.

Eles estavam em todo o lado.

E ela sentia-se sozinha , numa ilha , rodeada por eles.

 

 

Paula Gouveia 2018

 

 

 

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Mãe, Mulher, Empresária. Simplesmente Eu e as palavras, que me aquecem a alma e me fazem sorrir.

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