Nesta imensidão de sentimentos desconexos que me assolam , a prioridade, é  estupidamente  tentar entender o que se passa com os outros.

Estupidamente , sim .

Durante toda uma vida , tentei decifrar as atitudes dos outros. Raramente , reparei que com isso  os desculpava.

Ou antes , arranjava desculpas para eles e para as suas atitudes.

Na maioria da vezes, acabava por conhecer mais deles , que eles próprios . Conseguia entender as razões das suas frustrações, dos seus traumas, das suas atitudes.

Parece ser uma mais valia…mas não.

É um fardo . Pois muitas vezes , vemos que o comboio vai descarrilar e só podemos assistir.

Outras, deixava que as desculpas que eu conseguia lhes oferecer fossem a factura bem cara que pagava…sozinha.

Mas nunca perdendo a esperança que as pessoas entendessem o que eu já tinha entendido.

Muitas vezes me considerei totalmente burra, por continuar instintivamente a fazer isto .

Mas sem botão para desligar …a solução é deixar acontecer.

No entanto, aprendi algo muito importante :

Tudo nasce e se desenvolve na nossa infância . Tudo na nossa vida actual, é ditado pelo que aprendemos, vivemos , sentimos, naqueles anos.

Tudo o que somos hoje , é reflexo da criança que fomos.

 

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Joana sentia-se desconfortável com aqueles sapatos ! A mãe ainda não tinha entendido que sapatos de verniz e fivelas , não encaixavam naquele parque infantil.

A areia, entrava no calçado e eles pesavam imenso. O vestido, apertava na cintura e condicionava-lhe os movimentos.

Olhava para as outras crianças, vestidas da mesma forma e não entendia …Porque razão elas não protestavam – ao invés – de se adaptarem serenamente aquela vestimenta?

A Joana, recusava-se.

Sentou-se num banco do parque e deixou os seus irmãos continuarem a fingir que se conseguiam divertir assim. Ou talvez se divertissem.

Ela não.

Enrolava a ponta do vestido, stressada . Estava condicionada,  e isso, deixava-a totalmente nervosa e ansiosa. A mãe , chegou-se a ela e barafustou algo sobre birra e  sobre castigo.

Joana, viu-a seguir caminho para junto dos irmãos e instintivamente  foi dizendo e explicando  a si mesma , que os avós tinham tratado assim a sua mãe .

Com castigos . Ela já tinha ouvido várias historias , nas reuniões familiares .

E o olhar da Joana…ficou carinhoso.

Ela amava a mãe . E mesmo , não tendo razão para a colocar de castigo , sabia que o fazia porque assim aprendeu. Não conheceu outro método .

A outra parte ( do alto dos seus 7 anos), se revoltava.

Por ser só ela a se revoltar , com algo que parecia ser mínimo para os outros , mas muito importante para ela : o conforto dos seus pés !

Ela  voltaria ali ! Convenciria  a avó a leva-la ás escondidas. Com outra roupa e calçado . E começou a elaborar o plano ! Algo  que a distraiu e lhe ocupou as horas ali sentada no “castigo”.

Vários anos depois, a Joana ia apanhar um elevador …o mesmo avariou no momento.

No meio da confusão que se gerou  e muito stressada , por estar atrasada para uma reunião , procurou as escadas de serviço .

Ao olhar para as ditas…ia desmaiando…aquilo mais parecia uma tortura em espiral ! E seriam 9 pisos….

Olhou para os seus sapatos lindíssimos…mas tão altos , que eram um autentico teste à  gravidade.

Baixou-se , retirou-os num impulso , pegou nas pastas e subiu as escadas a correr, com os sapatos na mão.

Ofegante , chegou ao 9º andar . Mas com uma sensação de liberdade e realização, que lhe reconfortava os sentidos.

Olhou para os collants e entrou em pânico !

Estavam rasgados…mais para o destruído, que rasgados ! Raio de mundo ! Ainda ninguém tinha tido um momento de genialidade e descoberto a forma de fabricar collants que não se rompessem !

Enfim…colocou os sapatos e entrou de rompante na sala de reuniões.

E parou fascinada, olhando em frente.

O que a fascinou e lhe roubou a atenção ,  foi a vista magnífica  sobre a cidade de Lisboa , que se vislumbrava sobre as largas janelas que iam do tecto ao chão…lindíssimo !

Que cidade maravilhosa e que sala de reuniões linda.

Tão fascinada , que não tinha reparado que só estava uma pessoa na sala…

Ele olhou-a , entre o surpreendido e um sorriso disfarçado.

” Boa Tarde , meu nome é Edgar Brown . Já tinha ouvido falar de si …mas prova-se que nada a faz desistir . Os outros , ainda estão e estarão no átrio . Sem meias rotas …mas no átrio. ”

 

 

Paula Gouveia 2017

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Mãe, Mulher, Empresária. Simplesmente Eu e as palavras, que me aquecem a alma e me fazem sorrir.

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