Existem momentos que mudam toda uma vida . Fracção de segundos , que nos fazem virar na estrada da vida.

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Raquel agitada,  se desenvencilhava da mochila do filho e o olhava fixamente para conferir se as roupas estavam em ordem e o cabelo rebelde minimamente apresentável .

Check up efectuado !

Sem direito a beijo, pois os amiguinhos poderiam ver , fez-lhe um carinho disfarçado e lhe dirigiu “um até logo”, seguindo apressada para o carro.

Atrasadíssima ! Hoje, a manhã tinha começado  com a máquina de café avariada , as chaves do carro perdidas e para completar os collants rasgados pelas suas terríveis mas belas criaturas caninas .

Se repetisse a palavra cansada  em voz alta, todos diriam,  que pareceria um disco riscado e muitos pensariam, que estava no limiar da vitimizaçao .

Não, não estava . O seu cansaço não era físico ou psicológico , era um cansaço de vida .

Não por ela ( a vida) , mas pela forma  como os seres humanos a tornavam . A hipocrisia que assolava quem ela mais gostava, deixava-a…Cansada.

De repente, o painel do carro, começou a dar sinal .O pneu começou a esvaziar-se…

Encostou  logo que foi possível na berma de uma estrada , algures perdida no meio do nada . Saiu do carro, a barafustar com  os deuses actuais e passados .

Mais um pneu furado !

Encostou-se ao carro e desatou a rir. Uma gargalhada interior , daquelas que vêem da alma e não tem controle .Que para ela sempre significava : Acabou .

Terminou tanto desequilíbrio . Tanta confusão , tanto pneu furado e mentes furadas .

Ainda a rir , olhou para o pneu .

Sabia fazer tantas coisas na vida , não sabia mudar um pneu . Olhou para a mini saia que vestia, para os saltos altos  que quase contrariavam as teorias do equilíbrio e sorriu .

Poderia chamar a assistência .Poderia…Mas não o iria fazer .

Aliás , iria ela fazer . Tinha aprendido na vida que só quem luta , mas faz , tem resultados . Ela lutava ,  mas tinha que lhe juntar o “fazer”, hoje.

Tirou os sapatos , olhou com ar de criança a desvendar um puzzle,  para os apetrechos de mudança do pneu e avançou .

Sentada junto ao pneu, no meio de tanta tralha desarrumada , ela sorria enquanto apertava as porcas .

O silêncio das serras que a circundavam,  a concentração devota que colocou no trabalho , alhearam-a do mundo circundante .

Vitoriosa se levantou tentando ajeitar a saia , olhando incrédula para as pernas todas marcadas , a saia totalmente amarrotada .

Ao terminar de ajeitar a saia e se erguer , embateu em algo e  deparou-se com uns olhos . Somente via um olhar .

Esses olhos,  sorriram divertidos e um som saiu do corpo que ali estava :

– Olá Raquel .

Ela ficou impávida e sem palavras .Estava ali um estranho !

Ele continuou…

– Se não  reconhecesse as tuas feições , reconhecia de certeza a tua falta de habilidade para a mecânica e a electricidade .

Olhou aparvalhada para ele e ele continuou :

– Nós os dois já incendiámos uma aula de electrotecnia  na secundária .

– Desculpa .lembro-me do acidente, mas não de ti .

– Eu disse-te naquele dia , enquanto riamos e eu te tentava esconder , que a próxima vez que te visse seria porque estarias a tomar estradas erradas ou fazer arder algo outra vez !

-Já me lembro … Nesse dia não fui aonde estava programado ir , por causa do incêndio .

Ele olhou-a sorridente. Os anos passaram lentamente por ele. Mas mesmo assim, não conseguia rever nele as feições do passado. Estranho.

– E eu espero que hoje não faças o que deverias fazer, por causa do pneu .

Ele colocou-lhe um pedaço de papel nas mãos, sorrindo se afastou.

Raquel petrificada , manteve o olhar. Que estranho !! Nem perguntou se necessitava de ajuda !

O mundo perdeu o cavalheirismo . Foi a moeda de troca pela emancipação feminina. Enquanto ruminava sobre os homens , arrumou as coisas e partiu.

No escritório, lembrou-se do papel . Foi ao carro busca-lo. Procurou-o . Estava debaixo do banco, deveria ter caído quando arrumou tudo.

Abriu-o …Simplesmente dizia :

” Não é um numero de telefone . ”

Ora !!! Que convencido !!

Furiosa subiu para o escritório. Realmente , era daqueles dias em que os astros estavam em colisão!

Entrou na reunião, ainda desconcentrada. Quando reparou, tinha decisões importantes a tomar e teria que as tomar nos próximos minutos . O estranho dia que viveu,  a alheou de tudo .

No momento de dizer sim ou não à proposta na mesa, ouviu outra vez as palavras :

“– Eu disse-te naquele dia , enquanto riamos e eu te tentava esconder , que a próxima vez que te visse seria porque estarias a tomar estradas erradas ou a fazer arder algo outra vez !”

Disse não. Recusei.

Saiu da sala ainda a ouvir o espanto dos que ficaram na reunião. Perguntou-se não estaria doida . Nunca na vida , tinha tomado decisões assim.

Na manhã seguinte, colocou um anuncio num jornal diário:

Procuro :

” Quem não tem numero de telefone ”

Assinado :  Quem coloca tudo a arder.

 

 

 

 

Paula Gouveia 26-01-2018

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Mãe, Mulher, Empresária. Simplesmente Eu e as palavras, que me aquecem a alma e me fazem sorrir.

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