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Ela tinha as mãos frágeis e enrugadas. Uma postura um pouco curvada, mas ainda assim cheia de dignidade.
Os seus longos cabelos brancos estavam presos num carrapito tradicional e o seu olhar poisava na neta com um brilho juvenil .
— Isto é para ti . Mas quero que me prometas algo : Só a vais abrir no futuro . E o futuro , significa quando fores uma mulher crescida e num dia em que considerares que já viveste o suficiente para veres e entenderes o que dificilmente entendes agora.
–Mas entender o quê avó ?
Ela sorriu …
–Entenderes que tudo o que te tentei ensinar , vai depender da mulher em que te tornares e da coragem que tiveres …
Estranho ! Clara, achou aquilo tão estranho ! E um pouco louco também. Devia ser da idade dela…Mas ela adorava aquela estranha avó.
Ela lhe entregou uma caixinha de madeira. Simples , um pouco gasta pelo tempo , fechada mas sem chaves.
—Mas avó, não tem chaves e está fechada…
—Claro ! E tal como disse, só num dia longínquo a abrirás . Um dia te lembrarás da nossa conversa.
e continuou:
-Prometes filhota ? Prometes que não a abres agora?
–Prometo avó…
Clara, olhou para a caixa e para a avó. Odiava na mesma medida que adorava , qualquer mistério.
Uma dualidade que já era parte integrante de sua personalidade e que muitas vezes ligava-se bem e outras tantas vezes, trazia-lhe problemas gigantes.
A caixa sobreviveu anos.
Desde a cabeceira da cama da Clara , a nascimentos e mortes, partilhas de divorcio , a sótãos, arrecadações e afins.
–“–
Clara olhou para as paredes que a circundavam.
O espaço era pequeno. Como sempre , tinha uma sensação de claustrofobia . Ela era uma selvagem. E como uma boa selvagem, os espaços não podiam ter fronteiras. Só o infinito do horizonte lhe aconchegava a alma.
Mas a sua mente não estava ali. A sua alma não estava ali. Estava fora da caixa que a circundava .
Ela tinha que tomar uma decisão. Talvez, a maior decisão da sua vida.
Nada do que lhe diziam , nada do que ela pensava saber , a sossegava ou acalmava.
A vida tem situações curiosas, para quem anda constantemente no sentido contrário do relógio. Existe um dia , em que tudo se conjuga e todos se juntam para tentar colocar os ponteiros do relógio de outrem, no sentido que interessa.
Mas não, no sentido que a ela interessava.
Estava sem soluções. Só existia uma . A única que sempre conheceu .
Continuar fiel a si própria.
Mas faltava-lhe ‘ouvir’ de alguém, isso mesmo. Não, porque duvidava de si mesma. Mas porque todo o mundo se tinha juntado em sintonia.
E quando assim é, poderemos manter a nossa convicção mas duvidamos sempre. Nem que seja em frações de segundos, de nós mesmos…
Seria aquele o momento que a sua avó um dia lhe tinha falado. Será ?
Pelo menos era este o momento em que ninguém nesta vida a poderia ajudar a decidir.
” Nunca mudes filhota…acredita sempre em ti e naquilo que defendes”
E ela não mudou . Nesse dia tomou a decisão de não se atraiçoar a si mesma.
A balança entre o certo e o errado , tentava equilibrar-se . Mas a honestidade que a Clara devia a si mesma, decidiria pelo lado correto.
Fossem quais fossem as consequências . Ela iria ser fiel a si mesma.
–“–
A casa estava num alvoroço . Eu estava com a convicta intenção de limpar a mesma . Como se estivesse a limpar uma vida. Necessitava de o fazer . Como se tudo dependesse daquela limpeza, para voltar ao normal.
Mas alem disso, adorava limpezas. Foi sempre o meu melhor ginásio, a minha maior amiga e a melhor terapia .
Retirei algumas caixas para a arrecadação e comecei a separar o que constava nelas . Necessitava deitar fora o excesso de acumulações de uma vida.
E cada papel, cada recordação que retirava , cada foto , era acompanhada de recordações , situações e historias já esquecidas e aconchegadas num canto de meu subconsciente. Histórias , que mais pareciam trechos de um livro imenso e surpreendente.
As horas iam passando e iam me surpreendendo com tanta informação que a mente me tinha ocultado.
Nunca me foquei no passado. Sempre o deixei no lugar que era dele por direito.
Nesse lugar longínquo…Já bem vivido e consumido que nunca usei como curativo ou desculpa.
Era somente o passado. Algo que nunca poderia ser alterado. Era inerte.
E cada vez que fechava uma gaveta da belíssima comoda do meu passado. Arrumava a gaveta e deitava as chaves fora. Depois, abria outra e descobria um outro novo e maravilhoso mundo.
Talvez, só assim a vida fizesse sentido. Para mim, só assim fazia.
Nesse dia , decidi escrever um livro. Toda aquela comoda era merecedora de um livro e merecia que eu encontrasse forma de voltar a abrir as gavetas e traduzi-las em palavras.
No fim de uma caixa de cartão , estava uma caixinha de madeira.
Era aquela ! Ainda recentemente me tinha recordado da avó e das suas palavras. E aquela era a caixinha que ela me tinha dado naquele dia estranho.
Abria ou não ? Ela tinha tido algo sobre isso…
A curiosidade e a lealdade das promessas. Algo que sempre tentei equilibrar com imensa dificuldade.
Decidi abrir a caixinha. Era o momento de a abrir.
Não era a minha famosa curiosidade. Era a sensação, que este seria o momento de abrir as gavetas da comoda…E também o seria desta caixinha.
Ela representava a minha avó e tudo o que ela me deixou como ´herança´.
Tive que ir buscar uma chave de fendas. Teria que arrancar aquela fechadura. Nunca existiram chaves.
Depois de algumas tentativas, a caixinha abriu.
Dentro estava forrada com um pano de linho branco solto, já um pouco amarelado do tempo .Tipo lenço antigo …E em cima dele estava uma vela branca , duas argolas de aço grosso entrelaçadas e uma pequena espada reluzente.
Tirei os objetos para fora .
Olhei-os , tentando entender . O que significava aquilo ?
Retirei o lenço. Eu lembrava-me daquele lenço !
Tinha as iniciais C & J . Eram as iniciais dos meus avós. Aquele lenço, andou na carteira do meu avô toda uma vida.
Era o lenço que a minha avó lhe tinha atirado da carroça aonde seguia num dia de festa. Foi o pedido formal e ancestral de namoro. Um namoro proibido e um Amor proibido. Mas um Amor que durou toda a vida deles. Contra tudo e todos , eles casaram , tiveram filhos e viveram juntos até ao ultimo dia.
O lenço representava o Amor. De certeza que era essa a mensagem …
E os outros ?
Olhei para os outros objectos e recordei os dias com a minha avó.
Momentos de uma infância que agora me vinham á mente e eram sinais de sabedoria daqueles meus antepassados. Momentos esses, que recentemente me ajudaram a tomar decisões e a manter-me forte.
A vela . A fé . As velas que acendíamos juntas. E tudo aquilo que eu deveria ter aprendido com ela e não aprendi enquanto o fazíamos…
As argolas de aço. A força . O anel entrelaço que ela usava ao pescoço . Feito de aço que a mãe lhe tinha dado. Representava a força e união das mulheres naquela família.
A espada.
Ainda a estou a ouvir, como se ela estivesse a gritar do cimo das escadas enquanto eu tentava montar a égua nos campos á frente da entrada principal :
–Clarinha, tu és balança de signo e de personalidade ! Equilibra-te rapariga !
Descia a escadas apressada e vinha ter comigo ao local em que eu ‘lutava’ ferozmente para montar a égua agarrando na sua crina.
Olhava-me divertida com o seu olhar de um intenso azul , mas muito séria na expressão facial.
-Só te falta uma espada , para te equilibrares aí em cima e acreditares em ti . Sempre fiel a ti mesma e ao animal livre que tens nas mãos!
-Uma espada avó ?!? E nem sela tenho ! Como queres que eu consiga ?
-Um dia entenderás a espada … Ainda és uma miúda .
-Sobre a sela , vais entender que não necessitas dela . Necessitas de acreditar em ti . E um dia descobrirás como fazer isso tudo, levando contigo uma espada.

 

 

Paula  Gouveia       Maio 2017

 

 

“Há vitórias que exaltam, outras que corrompem – derrotas que matam, outras que despertam”

 

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Mãe, Mulher, Empresária. Simplesmente Eu e as palavras, que me aquecem a alma e me fazem sorrir.

2 Comment on “Amor , Fé , Força e uma Espada

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